15 de abr de 2017

A cada enchente parte da esperança vai sendo destruída

Sheila de Castro da Silva, mãe de seis filhos e também é uma das vítimas da enchente e da corrupção da política brasileira. 


(Imagem: Carlos Irineu - Márcio, Wallaxe, Ronaldo, Sheila, Ana Raquel)


Na noite do dia 6 de abril  de 2017, às 23h, enquanto a água com lama entrava pelas madeiras do seu barraco, na comunidade da Caboré - extremo da zona leste, Sheila se preparava para enfrentar uma das maiores dificuldades de toda a sua vida. Os quatro filhos que vivem com ela em um espaço dividido em três cômodos não imaginavam o esforço que a mãe faria para salvar os documentos e suas vidas.

Com a água chegando na altura dos joelhos e com coração apertado, a mãe colocava seu filho Ronaldo de 8 meses, Wallaxe da Silva 9 e Ana Raquel 5 na cama de cima do beliche, enquanto Márcio Henrique de 13 anos a ajudava a salvar o que podia. 

Com uma renda de R$ 350,00 de pensão do filho mais velho, Márcio, e uma ajuda do programa social bolsa família R$ 300,00, a família tenta sobreviver. Quando os filhos querem uma bolacha, salgadinhos a mãe não pode comprar. Compra o arroz, feijão, leite e a farinha de trigo para fazer os bolinhos de chuva quando não tem moedas para o pão do café da manhã.  


(Imagem: Carlos Irineu - Sheila na entrada do barraco)

Sheila vive à beira do córrego Caboré, local que é  castigado pelas chuvas de verão de todos os anos. O estrago do último dia 6 de abril só não superou a enchente que cobriu maior parte das casas em 1997. Ou seja, há décadas, centenas de famílias vivem lutando para não perderem a vida, além de dormir e acordar todos os dias com o mau cheiro que invade os barracos, com ou sem chuva.   

No dia seguinte pós-destruição, foi o dia de voltar ao barraco, que agora está com a estrutura comprometida, e contabilizar os prejuízos de tudo aquilo que outrora havia conquistado através de doações. A geladeira é a mesma de antes, só que agora não mantém nem a água gelada. Os colchões estão em frente o barraco cheios de lama à espera do cata-bagulho da prefeitura regional de São Matheus. Roupas, lençóis e a dignidade de alguém que se sacrifica diariamente para sobreviver foram carregados pelas águas. 

(Imagem: Carlos Irineu - entrada da casa de Sheila)

Sem a ajuda dos ex-maridos, pois cada filho tem um pai, a mulher do sertão pernambucano além de lutar para não perder as crianças nas enxurradas vive apreensiva por criá-los numa comunidade onde o tráfico de drogas impera.

Sheila é só mais um vítima do descaso da política corrupta do Brasil. Ela sabe que este momento se repetirá no próximo ano. A cada chuva uma destruição. A cada enchente parte da esperança vai sendo destruída.