10 de fev de 2017

Intercambista de primeira viagem

Muitos brasileiros que sonham com o intercâmbio não imaginam que as dificuldades enfrentadas vão além do preparo pré-intercâmbio, que é quando você paga o curso, compra passagem, passa meses guardando dinheiro para levar ao país de destino. 

Com base nos 34 dias que vivi na República da Irlanda, em Dublin, vou relatar, de fato, como é a vida de um intercambista, como nós, brasileiros, somos vistos e tratados em outra nação. Quais as dificuldades e as limitações enfrentadas por todos aqueles que saem de sua zona de conforto para viver uma grande aventura?

Mas, além dos perrengues, posso afirmar que a experiência e os aprendizados, mesmo que negativos, são extremamente importantes para a nossa vida pessoal e profissional. Este relato se baseia em todas as histórias que vi e ouvi durante a minha estadia na ilha.


(Imagem: Carlos Irineu - O´Connell Street - Dublin)


Muitas agências de intercâmbio, as grandes responsáveis por vender esses sonhos, maquiam toda a realidade dos países afora. Claro que, ao escolhermos o nosso destino, buscamos conhecer ao máximo a cultura, a economia e os costumes do país. Mas, é óbvio, que uma pesquisa no google não nos leva à realidade. 

Conversando com alguns dos milhares de brasileiros que vivem, especificamente, na Irlanda, pude perceber que a grande parte chega com uma imagem construída do país perfeito, e na primeira semana mudam completamente o conceito do sonho que comprara antes de chegar. Claro que quem chega em qualquer lugar do mundo, não deve achar que tudo será as mil maravilhas. 

Um brasileiro chega para estudar 6 meses na Irlanda, porém, para isso, é preciso desembolsar e comprovar o valor de 3 mil euros para ter o direito de obter a documentação necessária para trabalhar e permanecer por até 8 meses como um bom cidadão. Sem colocar na ponta do lápis o valor gasto com curso, acomodação e alimentação. 

Bom, todos vão preparados (ou quase) e sabendo das normas do país, mas, mesmo assim, vivem no limite. Encontrei pessoas que vão com intuito de estudar inglês, mas a ambição por um trabalho que te paga em euro se torna tão importante que o cara acaba perdendo o foco de estudar e retorna ao Brasil com o mesmo nível de inglês.

Outros vivem no limite do limite. Aceitam trabalhos escravos, são humilhados e, por estarem em um país da Europa, acham a coisa mais natural do mundo. Muitos aceitam subemprego e subsalário, esses, que mal pagam seu aluguel.

Infelizmente, nós, brasileiros, somos vistos com outros olhos. Pude comprovar de perto. ''Where are you from?'' Pergunta o gringo com muita simpatia. I'm from Brazil - respondo com muita simpatia. Isso basta para que o tom da conversa mude, os olhares se estranham e você deve imaginar o que o cara pensou ao meu respeito. 

Não acredite em conto de fadas. Não acredite em agências que vendem o destino perfeito. O país tem uma segurança exemplar, uma economia estável, impostos que não servem para engolir o cidadão, mas não é perfeito. Vá com o coração aberto para viver cada momento. Vá preparado, sim, para se sentir discriminado. Mas não perca a essência brasileira. A essência boa. Afinal de contas, não vamos ser hipócritas, temos grandes problemas. 

Em breve, vou contextualizar toda essa experiência em um livro de autoajuda para todos aqueles que vão viver, estão vivendo ou viveram na Republic of Ireland.

See you after! Bye